
A onda quebra suas águas frias contra a areia morna e molha meus pés nus numa sintonia entre humano e natureza. De sandálias nas mãos, cabelos ao vento e braços abertos, deixo que a brisa fria traga o estupor do cheiro de liberdade que transpassa por entre meus dedos.
Sinto
o enaltecimento do momento em que trago de mim o que eu talvez desejo
ser. Escuto o vento conversando com as folhas das árvores e despertando a
força da rebentação das ondas. A visão de um céu azul e o farfalhar do
cascalho rolando pela areia.
O cantar das gaivotas são
como silvos de um infortúnio pensamento, que sibilam dentro de mim num
tom agudo que me faz tapar os ouvidos como num gesto desesperado de não
ouvir a mim mesma. No fundo queria ser como aquelas aves que sobrevoam a
enseada; seria capaz de trocar qualquer regalia por um par de asas;
talvez o vôo me levasse sem destino por um céu infinito onde não importa
o que digo, o que penso, o que falo.
Deito-me na areia
quente, sob um sol que não me permite olhá-lo diretamente. Seus raios
penetrantes saltam sob meus olhos deixando-me como aquele que recobra a
visão e enxerga pela primeira vez com um esforço desdobrado de quem
desacostumara-se a claridade.
Fecho os olhos e imagino-me
esticando os braços tão longe, que posso pegar um tufo de nuvem que como
fumacinhas ondulantes, escapam por entre meus dedos. É mágico, surreal.
Mais além, de ouvidos aguçados, ouço o
sibilar dos passarinhos banhando-se sobre as pedras, onde podem se
aproveitar das gotículas geladas que se chocam sobre as rochas e
divertem-se escorregadias sobre suas penas.
É como se um cantarolar suave de uma voz sublime vindo do mar me arrastasse numa sintonia desvairada entre real e imaginação.
O
sol já se põe no horizonte, o céu mostra-se num crepúsculo alaranjado,
como que pintado cuidadosamente. Os raios cansados perdem força e se
esvaem lentamente atrás da retidão do mar calmo, refletindo no oceano e
construindo um breve caminho avermelhado sobre as águas; um tapete de
ondulações que se movem à brisa lenta.
Uma chuva fina e
gelada me carrega num frio abstrato, que me faz encolher e partir de
braços cruzados. Junto com as gotículas que caem do céu, vem ela, a
noite; como num balanço de partida, companheira, que desperta medos e
imaginações. Uma noite sem estrelas, sem lua, nublada, chuvosa. Que veio
para resfriar o calor do dia, a sintonia que se estendeu sobre mim.
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