Canvas era a música que me acompanhava por aquele caminho.
Liguei o som a um volume agradável; dirigia solitariamente sob uma lua
parcialmente encoberta pelas névoas que esbranquiçavam as coníferas que
circundavam aquele caminho.
Deixei-me levar
pelo som, podia eu até distinguir os acordes diferentes, a harmonia da
sintonia, as vibrações inteligentes que beneficiavam minha existência;
minha alma insistia em acompanhar o ritmo envolvente do conjunto de
notas que compassavam a música perfeita. Era como um drogado se
satisfazendo do seu mais repugnante ópio. O êxtase momentâneo me tomara,
meus olhos adormeceram.
Por um momento, um
ensurdecedor estampido ivadira meus ouvidos, senti uma fincada bruta que
atravessara meu cérebro, meus sentidos desapareceram, senti uma inércia
vinda de meu corpo. Uma força me obrigara a permanecer imóvel, um
líquido quente e estranho entrava em contato com minha pele
sensibilizada pelo choque que me delirara. Permaneci conforme meu todo
implorava.
A luz cortante do sol quebrara a
escuridão dos meus olhos. Senti uma força maior me puxando, minhas
vistas não deixavam-me ver nada mais que borrões coloridos e frenéticos
que me rodeavam e balbuciavam palavras longe da capacidade de minha
mente trabalhar o significado.
Só sei que nada
sei. Foram sucessões de acontecimentos ilegíveis, pude ver as árvores
aparecendo e desaparecendo de forma rápida por entre... as janelas de um
carro em movimento? Sim, fora uma das únicas coisas que distingui. Era
um tipo de carro grande, que se movia em alta velocidade, seu interior
era reconfortante, inexplicavelmente diminuía a dor cortante que
atravessara minha cabeça, devido a estranha forma imobilizada que meu
corpo permanecia.
O clarão deixara meus
olhos, um entorpecimento se acomodara em meu ser. Senti impulsos
descontrolados e uma energia estranha vinda de um choque profundo no
lado esquerdo de meu peito. Era um lugar estranho, onde vultos brancos
se movimentavam freneticamente; por um momento pensei estar sonhando com
anjos, mas minha avó sempre me dizia que em sonhos não sentimos dor, o
nosso psicológico cria situações em que temos medo de enfrentar.
O
pouco que meus olhos abriram, permitiu com que me deparasse com uma
alta janela que servia de palco para o espetáculo incrível dos cristais
de gelo das coníferas sendo derretidos pelos raios solares; e
transformados em pequenas gotículas de água que chuviscavam os pássaros
que por ali sobrevoavam.
Um zumbido indefinido
invadira meus ouvidos, o meu eu tornara-se novamente inerte, o ar que
percorria meus pulmões fora extraviado, uma retenção por entre minhas
vias me tomara, uma dor na extremidade esquerda de meu peito corroia-me
de tal forma que nunca dantes sentira em toda minha vida. Minha alma
desfalecia, meu corpo fora despojado de calor, mas não sentia frio,
todos os sentidos adormeceram, as luzes desapareciam gradativamente.
Não, eu queria continuar a olhar aquelas árvores, aquele espetáculo da
natureza que me privilegiava, mas cada imagem se esvanecia, não podia
relutar, não era fraqueza, era uma inércia que me confrontava, já não
sentia mais dor, nem qualquer tipo de sentimento.
Meus olhos tornaram-se em trevas.
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