Não temo que as palavras diminuam, temo que elas se acabem, se
esgotem... As palavras limitam em expressões insaciáveis de uma vida, de
um sentimento, de experiências intensas demais para serem descritas com
exatidão. As palavras limitam, mas ainda assim expressam, dão margem,
direção, apontam o que é e vai além do que, simplesmente, se vê. Eu temo
sim o costume, mais do que a ausência das palavras, porque o silêncio
pode dizer muitas coisas, ser fecundo, cheio de respostas, ou abrigar a
necessidade de calar-se para ser capaz de amar de verdade, mais e
melhor. O costume ao qual me refiro, é o primeiro passo para perder o
encanto, a capacidade de encantar-se, a competência de contemplar o
belo, o outro, de descobrí-lo, de amá-lo. O costume não permite amar,
nem ser amado! O costume em ouvir as palavras que, por serem limitadas,
se repetem por algumas, muitas vezes ou por toda a vida, faz com que
estas não tenham seu sentido, significado e intensidade atualizados. É
não saber que
o "eu te amo" de hoje, é diferente do de ontem, é mais maduro, é mais provado, mais doído, mais autêntico... O
homem está sempre em processo de crescimento. A vida é um ciclo em
constante mudança, um processo de maturação e descobertas sobre si,
sobre o Amor e o outro, que se estenderá até o último suspiro do ser
vivente. Para o coração que ama é necessária a clareza de que se pode
amar mais, de que o amor não é findado, não é mensurável, não é
perfeitamente exprimível. É uma grande tolice permitir que aconteça com
os gestos simples do cotidiano, como chegar em casa e encontrar tudo
arrumado, a comida pronta, a roupa bem cuidada, perfumada e passadinha, e
não perceber quanto amor há alí, talvez o amor da mãe, o cuidado da
avó, ou a atenção e dedicação de uma pessoa que fora contratada para
isto! Se não estou equivocada, Heráclito dizia que
"um mesmo homem não pode atravessar o mesmo rio duas vezes", e nesta citação ele se referia, de forma brilhante, diga-se de passagem, ao fato de que estamos em
"processo de feitura"!
Mesmo que o homem voltasse a atravessar o rio, este já não seria "o
mesmo" por estar sempre em movimento, e nem o homem poderia ser "o
mesmo", pois já teria mais experiência, já estaria mais velho, ainda que
poucos minutos ou algumas horas, já teria experimentado de outras
sensações, outros pensamentos já lhe teriam ocorrido como a água do rio
que corre. Saber o valor das palavras ditas e/ou não ditas, é como ter
acordado pela manhã e já se deparado com a mesa posta, o café fresquinho
e quente a lhe esperar, por toda a vida e um dia, ao acordar, ver que a
mesa está vazia, o café não está pronto e lembrar-se com saudades do
tempo que hoje é passado, só então, muitas vezes, é possível saber o
valor das palavras contidas no gesto silencioso de tantos anos, nas
palavras não ditas repetidas por tantas e tantas vezes... Saber o valor
das palavras ditas e/ou não ditas, é como passear durante uma noite de
céu deslumbrante e não notar o amor que há naquela quietude, no brilho
das estrelas ou na majestade de uma lua cheia, é não saber que tudo isto
fora preparado pelo Amor...
Quero amar sem costumes sempre! Quero ser sempre surpreendida pela
novidade do Amor e do amar. Gostaria de ser capaz de expressar de formas
diferentes, caso não consiga palavras melhores e mais adequadas, não me
fartarei em dizer um "eu te amo" cá e outro lá, aos meus amados, sempre
que me for oportuno!
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