É
de vestes pretas, uma bolsa a tiracolo, um caderno velho em mãos e uma
garrafa de chá verde bem quente, que eu me encontro sentado na última
poltrona do quinto vagão do trem que daqui a alguns minutos partirá para
o porto.
O tempo está gélido e parado; o frio cortante esfria até as vísceras de quem está do lado de fora. Creio que a sensação térmica está de uns -3ºC; há muito que eu não via nevar assim em Berlim. As calçadas das ruas mais movimentadas do país estão brancas e escorregadias, o comércio local permaneceu dois dias parados devido à falta de clientes. A maioria das pessoas não sai de casa e não é por causa da neve.
Chegando no porto embarcarei no primeiro navio com destino as Américas. Aqui, na Alemanha, nascidos judeus, como eu, não têm lugar ao sol. Tive medo do que poderia acontecer, não queria fazer parte daquele bando que grita desesperadamente lá fora. Eu tinha medo de ter que viver uma vida, se é que pode se chamar assim, nos trapos, implorando por um prato de comida ao primeiro que passa ou brigar por algumas migalhas de pão jogadas pelos soldados. Nunca me acostumarei a isso, fui criado numa casa grande com escadarias e três refeições ao dia; acho que morreria se passasse meia hora naquela situação desafortunada.
Herdei algumas pequenas fortunas de meus pais, isso pagou minha viagem e um esconderijo seguro contra as bombas que coloriram o céu nas noites anteriores. As pessoas estão desesperadas atrás de uma mísera moeda, tudo está sendo cobrado, até um lugar sujo no porão. E se quiser sobreviver ao dia seguinte, tem que pagar.
Muitas pessoas estão embarcando, a maioria deles judeus bem-sucedidos ou alemães que são contra o regime hitlerista implementado. Está uma balburdia de vozes alteradas, parece que os lugares estão se esgotando e muitos ficarão para fora. Pobres pessoas enganadas! A companhia capitalista vende mais passagens do que a quantidade de lugares disponíveis; porcos alemães, enganar pessoas que apostaram as suas últimas economias para fugir desse inferno.
Bem em frente a minha janela há um casal com dois filhos. Não menino, não me olhe com essa cara; não posso ceder meu lugar a vocês. Fechei a janela para não ver aquelas duas crianças com seus pais, seus olhinhos piedosos ainda me fitam pela fresta da cortina. Ocupei duas poltronas, uma para mim e outra para minhas malas; estava começando a me sentir desconfortável, ora, era uma família pobre, bem se via. Mas o que eu tenho a ver com isso? Eu também paguei por esse lugar, por esse mísero lugar na segunda classe.
Continuo escrevendo, a relatar os acontecimentos dessa Alemanha de 1936, tentando ignorar que lá fora há um casal com duas crianças que aparentemente não vêem um bom prato de comida há um bom tempo. Que exemplo irei dar aos meus filhos quando eles lerem essas minhas notas? Provavelmente pensarão que tiveram um pai covarde e coração de pedra.
Não tenho a certeza se é isso mesmo que devo fazer, mas já estou fazendo: ajuntando minhas duas malas e partindo corredor a fora.
É, o casal e as crianças já estão lá dentro, sentados em meu lugar e eu aqui fora, nesse frio cortante. Perdi meu dinheiro e meu navio para a América. Em compensação ganhei dois abraços acalorados daquelas duas crianças que me aqueceram até a alma. O casal nem soube como me agradecer, só faltaram se ajoelhar na minha frente. Deixei minha garrafa de chá verde sobre a poltrona, talvez eles precisassem de algo para se aquecer; pus ao lado um bilhetinho de boa sorte, nem sei se sabiam ler. Estou me sentindo melhor assim, odeio olhares piedosos pra cima de mim, pelo menos esse meu caderninho velho terá uma história boa pra contar.
Uma mala pendurada num braço, outra no outro, bolsa a tiracolo e caderninho em mãos. Andando pelas ruelas de Berlim e escrevendo como um louco. Um cachorro veio cheirar a sola do meu sapato e levei uma pedrada nos calcanhares, nem liguei para a identidade do engraçadinho; continuo andando e andando, sem destino.
Esse meu lar feito de asfalto e neve, com um teto branco e sem paredes. Ah, tem um banco logo ali na praça com uma camada espessa de gelo. As primeiras folhas das minhas anotações molharam ao pousar o caderno rapidamente para eu forrar o banco com um casaco. Se ao menos saísse um sol para secar... Acho que o tempo está de mal com todos.
Aqui estou eu, sentado sobre meu casaco que forra o banco molhado. Estou preenchendo as últimas linhas, acho que terminará em um tempo proporcional a minha vida, não sei se amanhã estarei aqui para começar outro caderno. Trato isso como ironia.
Posso ouvir ruídos distantes do marchar de tropas. A essa hora aquela família está a bordo do trem a caminho do porto; que eles sejam felizes. Tentarei ser aqui também. Uma tímida réstia de sol está refletindo bem em meus olhos, isso está diminuindo o frio que congelou a ponta do meu nariz; é o pouco que me resta.
Quem sabe amanhã o dia nasce mais feliz?
O tempo está gélido e parado; o frio cortante esfria até as vísceras de quem está do lado de fora. Creio que a sensação térmica está de uns -3ºC; há muito que eu não via nevar assim em Berlim. As calçadas das ruas mais movimentadas do país estão brancas e escorregadias, o comércio local permaneceu dois dias parados devido à falta de clientes. A maioria das pessoas não sai de casa e não é por causa da neve.
Chegando no porto embarcarei no primeiro navio com destino as Américas. Aqui, na Alemanha, nascidos judeus, como eu, não têm lugar ao sol. Tive medo do que poderia acontecer, não queria fazer parte daquele bando que grita desesperadamente lá fora. Eu tinha medo de ter que viver uma vida, se é que pode se chamar assim, nos trapos, implorando por um prato de comida ao primeiro que passa ou brigar por algumas migalhas de pão jogadas pelos soldados. Nunca me acostumarei a isso, fui criado numa casa grande com escadarias e três refeições ao dia; acho que morreria se passasse meia hora naquela situação desafortunada.
Herdei algumas pequenas fortunas de meus pais, isso pagou minha viagem e um esconderijo seguro contra as bombas que coloriram o céu nas noites anteriores. As pessoas estão desesperadas atrás de uma mísera moeda, tudo está sendo cobrado, até um lugar sujo no porão. E se quiser sobreviver ao dia seguinte, tem que pagar.
Muitas pessoas estão embarcando, a maioria deles judeus bem-sucedidos ou alemães que são contra o regime hitlerista implementado. Está uma balburdia de vozes alteradas, parece que os lugares estão se esgotando e muitos ficarão para fora. Pobres pessoas enganadas! A companhia capitalista vende mais passagens do que a quantidade de lugares disponíveis; porcos alemães, enganar pessoas que apostaram as suas últimas economias para fugir desse inferno.
Bem em frente a minha janela há um casal com dois filhos. Não menino, não me olhe com essa cara; não posso ceder meu lugar a vocês. Fechei a janela para não ver aquelas duas crianças com seus pais, seus olhinhos piedosos ainda me fitam pela fresta da cortina. Ocupei duas poltronas, uma para mim e outra para minhas malas; estava começando a me sentir desconfortável, ora, era uma família pobre, bem se via. Mas o que eu tenho a ver com isso? Eu também paguei por esse lugar, por esse mísero lugar na segunda classe.
Continuo escrevendo, a relatar os acontecimentos dessa Alemanha de 1936, tentando ignorar que lá fora há um casal com duas crianças que aparentemente não vêem um bom prato de comida há um bom tempo. Que exemplo irei dar aos meus filhos quando eles lerem essas minhas notas? Provavelmente pensarão que tiveram um pai covarde e coração de pedra.
Não tenho a certeza se é isso mesmo que devo fazer, mas já estou fazendo: ajuntando minhas duas malas e partindo corredor a fora.
É, o casal e as crianças já estão lá dentro, sentados em meu lugar e eu aqui fora, nesse frio cortante. Perdi meu dinheiro e meu navio para a América. Em compensação ganhei dois abraços acalorados daquelas duas crianças que me aqueceram até a alma. O casal nem soube como me agradecer, só faltaram se ajoelhar na minha frente. Deixei minha garrafa de chá verde sobre a poltrona, talvez eles precisassem de algo para se aquecer; pus ao lado um bilhetinho de boa sorte, nem sei se sabiam ler. Estou me sentindo melhor assim, odeio olhares piedosos pra cima de mim, pelo menos esse meu caderninho velho terá uma história boa pra contar.
Uma mala pendurada num braço, outra no outro, bolsa a tiracolo e caderninho em mãos. Andando pelas ruelas de Berlim e escrevendo como um louco. Um cachorro veio cheirar a sola do meu sapato e levei uma pedrada nos calcanhares, nem liguei para a identidade do engraçadinho; continuo andando e andando, sem destino.
Esse meu lar feito de asfalto e neve, com um teto branco e sem paredes. Ah, tem um banco logo ali na praça com uma camada espessa de gelo. As primeiras folhas das minhas anotações molharam ao pousar o caderno rapidamente para eu forrar o banco com um casaco. Se ao menos saísse um sol para secar... Acho que o tempo está de mal com todos.
Aqui estou eu, sentado sobre meu casaco que forra o banco molhado. Estou preenchendo as últimas linhas, acho que terminará em um tempo proporcional a minha vida, não sei se amanhã estarei aqui para começar outro caderno. Trato isso como ironia.
Posso ouvir ruídos distantes do marchar de tropas. A essa hora aquela família está a bordo do trem a caminho do porto; que eles sejam felizes. Tentarei ser aqui também. Uma tímida réstia de sol está refletindo bem em meus olhos, isso está diminuindo o frio que congelou a ponta do meu nariz; é o pouco que me resta.
Quem sabe amanhã o dia nasce mais feliz?

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