Tudo começa com uma generalização homofóbica: Os gays são promíscuos. Como se não bastasse a homofobia, em si, ser uma coisa estúpida, generalizações são uma excelente maneira de deixá-la ainda mais. E podemos encontrar várias outras tão preconceituosas quanto. Algumas gozam até de certo status, como atestado (falso, é claro) de pensamento crítico: Todo político é ladrão. A justiça neste país não funciona. As religiões são o atraso da humanidade. Homens são mais erotizados que as mulheres. As mulheres são mais sensíveis que os homens.
Quantas frases feitas como essas você tem no seu repertório cognitivo
diário? E quantas você pensa antes de usar? Estou perguntando porque a
generalização da “promiscuidade gay” parece ser uma das
preferidas de serem desconstruídas pela grande maioria dos homossexuais,
mas outras, nem tanto. É claro, eu não poderia querer que fôssemos
mais esclarecidos que a média da população. No entanto, o meu assunto
neste momento é outro. Quero falar do próprio processo de quebra da “generalização da promiscuidade”.
Essa situação, a princípio, me lembra o que acontece quando “acusam” alguém de ser gay e logo vem “a turma do bem”
dizer que não… que o indivíduo acusado não é gay, essa coisa feia e
horrorosa. Assim como essa defesa presume que ser gay é um demérito a
ser evitado, o que o senso comum chama de “promíscuo” é rotineiramente taxado de errado por quem se presta a desconstruir a generalização da “promiscuidade gay”
com os argumentos errados, recusando-se a se despir os mesmos
preconceitos de quem faz as acusações. Aí nos sobra uma onda de
moralismo gay, cuspindo no prato das liberdades sexuais, quando as
conquistas desta nos interessam muito mais do que a mera substituição de
imposições morais. Vejamos como isso funciona.
Bradam eles que os gays não são promíscuos, são monogâmicos, fiéis e
românticos, tanto quanto os modelos heteronormativos de par perfeito, e
que os “depravados” são a exceção indesejável – Os responsáveis pelo preconceito sofrido por todos, completam alguns. Dizem esses arautos do “bom mocismo” gay que os os gays “têm que se dar ao respeito para serem respeitados”.
Essas frases soam familiares para todos? Porque pra mim
elas são bastante. E me encho de desgosto quando leio ou escuto coisas
assim, porque são as mais fatais em demonstrar que mesmo o combate ao
preconceito pode ser preconceituoso, moralista.
Aponto esse dedo contra o moralismo porque… O que é promiscuidade? A
maioria das pessoas pensa em excesso de parceiros, opção por relações
puramente sexuais, infidelidade, ou mesmo safadeza pura e simples. Mas o
ponto principal aqui é: Quem foi que disse que essas coisas são ruins, para termos que evitá-las tanto?
A relação dessas coisas com a tal da “promiscuidade” é meramente
uma maneira de arranjar um termo “guarda-chuva” que cubra várias
coisas ditas ruins, dessas que a moral despreza, ou é algo específico,
que designe algo por si só? A promiscuidade existe, afinal?
De acordo com o que temos mais próximo de um critério objetivo, que
seria o critério de número seguro de parceiros sexuais para quem
pretende doar sangue, se você teve mais de três parceiros num ano, já
pode ser considerado promíscuo. Uau. Se brincar, até uma vovó viúva que
sai pra namorar nos bailes de terceira idade já pode ser considerara
promíscua agora. Ficaram chocados? Eu e essa vovó também. Tudo puta!
Percebam que isso é arbitrário. Não há objetividade alguma nos
julgamentos acerca disso, e isso fica ainda mais evidente quando falamos
de opiniões. Se formos entrar no campo das noções puramente
subjetivas, não haverá muito o que ser discutido sobre esse assunto, em
lugar nenhum. Ou vamos começar a considerar o conceito de todo mundo a
respeito disso? O papa, por exemplo, o que será que ele pensa sobre a
quantidade ideal de parceiros? Ops, parceiras. Ou melhor, parceira.
Esqueci que, pra ele, essa coisa de “homossexualismo” (sic) é
imoral também, bem como qualquer fora de relação sexual fora de um
matrimônio, que tem que obrigatoriamente durar pra sempre. Bem se pode
notar daí que assumir certas subjetividades como universais traz um belo
pacote de baboseiras a tiracolo…
É justamente pelo sexo entre iguais ser considerado “errado” que
sofremos preconceito. Mas parece difícil demais que a maioria das
pessoas perceba que preconceitos andam de maos dadas e são filhos dos
mesmos pais. Nada seria mais natural, nesse contexto, que assumir que
defender a liberdade de conduta sexual colabora para uma visão de mundo
em que não haja formas erradas de se ter prazer entre dois ou mais
adultos conscientes, e que isso não é algo a ser feito pelas metades.
Ainda se pode ressaltar como curioso e sarcástico (eu nem vou dizer que é uma ironia da vida, porque o escárnio do termo “sarcasmo” me parece mais apropriado)
que a rejeição à promiscuidade e mais todo o conjunto de tabus sexuais
acabem tendo um efeito contraproducente em relação a seus objetivos.
Sim, porque se você compartimenta o sexo humano e diz “não pode”, você
reprime o desejo e apenas contribui para que sua vazão seja mais forte
posteriormente. Isso atrapalha até mesmo os relacionamentos que parodiam
o sonho do príncipe com cavalo branco. Já vi muitas pessoas fazendo
toda uma imitação de relacionamento afetivo unicamente para poderem ter
sexo, incapazes de serem francas sobre suas reais intenções, tudo em
nome do respeito a essa moral segundo a qual sexo é uma coisa safada e
suja. A Hipocrisia se regozija, enquanto as pessoas persistem em não
descobrirem que a moral, apesar de suas origens na coletividade, na
tradição, só pode subsistir no âmbito do individual.
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