Todo o tempo em que eu estivera em Paris, ficara contando os dias para voltar a Londres.
Sentia
saudade da magnitude de meu país, do frio, do chá diante da lareira que
crepitava jogando torrões de carvão por toda a sala. Estava imaginando
minha estadia acalorada de regresso, sentado em um assento
desconfortável de trem. Observava as imagens que corriam através da
janela, conforme o movimento ágil da locomotiva. Fechei os olhos e
adormeci.
Era
cheiro de erva doce, um perfume suave. Fiquei tão extasiado com o
aroma, que continuei de olhos fechados para que o perfume que invadia
minhas narinas ressaltasse ainda mais sua doce essência. Fiquei ali,
exalando aquele perfume estonteante, como um perfumista que testa sua
mais nova criação.
Abri
os olhos e como um rastro perfumado, a essência de ervas levou meu
olhar a uma donzela que conversava com uma senhora. Ela tinha cabelos
rubros presos em uma trança envolvida em fios dourados e trajava um
vestido longo, de um vermelho escuro que contrastava com seus cabelos.
As mangas longas eram de rendas pretas e um espartilho prendia o vestido
a sua cintura. Foi tudo o que pude ver; pois a donzela misteriosa, dona
daquele perfume, estava de costas.
Em
torcidas frustradas para que ela se virasse e eu pudesse contemplar
seus olhos,a tal senhora a arrastou pelo braço, vagão a fora. Ah, como
eu queria vê-la! Perguntar seu nome, conversar com ela, saber o que
estava acontecendo.
Segui
viagem atormentado em saber que a dona do perfume mais estonteante e
dos cabelos mais lindos que já vira, estava a alguns vagões a minha
frente.
O
solavanco da locomotiva avisou aos passageiros que já haviam chegado à
estação de desembarque. Apanhei minhas malas, pousei meu chapéu sobre a
cabeça e saí cortando a multidão que desembarcava, na esperança de
encontrar a Donzela Misteriosa. Sim, foi assim que decidi que a chamaria
enquanto não soubesse seu nome.
Desci
na estação, e através de tantas pessoas que se abraçavam num afago de
boas-vindas, um brilho vermelho se destacou adiante. Os raios de sol
refletiram nos cabelos da Donzela Misteriosa que caminhava em direção a
um carro, acompanhada pela senhora e por um homem de aparência muito
distinta.
Corri
numa tentativa de aproximação, mas a Donzela Misteriosa partiu naquele
carro. De repente algo brilhou na beira da calçada. Curvei-me e apanhei o
que era um lenço branco com uma pequena rosa incrustada de pedrinhas
vermelhas. Era dela, eu tinha certeza. Tinha o cheiro dela, o destino
não fora tão cruel, ao menos me deixara uma lembrança. Guardei o lenço
na lapela e segui andando.
Minha
casa estava do mesmo jeito de como quando parti há três anos. O cheiro
de ambiente fechado matava a minha saudade daquele lugar. Joguei as
malas pela sala e abri as janelas para deixar o sol dar as boas vindas.
Atirei-me
no sofá, arranquei os sapatos e fiquei a contemplar aquele lenço,
carregado do aroma da Donzela Misteriosa. Como era bom voltar a Londres!
No
dia seguinte, o jornaleiro deixou o jornal do dia na soleira da porta.
Fui pegá-lo segurando uma xícara de café e, com um baque surdo, deixei a
xícara cair ao chão espalhando café e cacos de porcelana por toda a
sala.
O
quê deixara-me tão extasiado, a ponto de ficar quase um minuto sem
dizer uma palavra, de olhos fixos na primeira página daquele jornal?
Nada mais que uma manchete que ganhara primeira página dizendo em letras garrafais:
As Nobrezas Se Unem
E
logo abaixo uma foto de um rapaz distinto ao lado de uma donzela. Ele
tinha certeza, era ela, a Donzela Misteriosa, com o mesmo sujeito que a
acompanhara de carro, na estação. Mesmo a fotografia sendo em preto e
branco, ele jamais poderia confundir aqueles cabelos trançados em fios.
Não trazia o nome dela, apenas a tratava como filha de um dos mais ricos da alta-sociedade londrina.
Ela
iria se casar, amanhã, ao final da tarde. Como numa evasão de
esperança, meus sonhos com a Donzela Misteriosa morreram. Caí sentado
sobre o sofá, ainda contemplando a fotografia. Agora eu podia vê-la,
seus olhos eram doces, mas uma sombra de tristeza parecia despontar de
seu olhar piedoso. Amassei o jornal e joguei-o sobre uma pilha de livros
que permanecia a um canto da sala.
O
dia pareceu correr, anoiteceu, amanheceu. Chegara o dia em que meu pior
pesadelo iria se tornar realidade. O lenço ainda tinha um lugar
especial em minha lapela, refletindo suas pedrinhas vermelhas que davam
forma a uma pequena rosa.
A
tarde foi caindo num crepúsculo que tornou o céu num rubro amarelado.
Fiquei inquieto, mas ao mesmo tempo conformado com o casamento da
Donzela Misteriosa; afinal, eu nem a conhecia. Como pude me apaixonar
por uma pessoa que nem ao menos sabia de minha existência, que até
pouco tempo atrás eu só conhecia pelos longos cabelos vermelhos,
trançados em fios dourados?
Quem
eu queria enganar? A mim mesmo? Apanhei o chapéu e segui para o grande
salão onde aconteceria o casamento. O som de uma orquestra já se
mostrava do outro lado da rua. Eu estava disposto a esquecê-la, mas
antes queria vê-la pela última vez, queria ver a cor de seus olhos.
Atravessei
a ruela de acesso aos fundos do grande salão. Havia uma janela de vista
estratégica para a festa, mas era demasiada alta para mim. Então,
lembrei-me de que logo mais a frente havia um caixote velho pousado
sobre uma árvore; fui correndo pegá-lo, quando na volta, deparei-me com
uma senhora puxando o braço de uma senhorita aos prantos. Era ela, eu
tinha certeza. Escondi-me atrás de um carro estacionado bem perto da
Donzela Misteriosa e ouvi a conversa.
Ela
não queria se casar estava decidida a fugir daquele casamento, mas a
senhora que a pressionava, dizia algo sobre honrar a família e então
adentraram ao salão.
Então
era isso o tempo todo, por isso ela estampava um olhar tão triste
naquela foto de jornal. Não, o destino não poderia ser tão injusto.
Ajeitei
o caixote logo abaixo da janela e subi sobre ele, agora podia ver tudo,
inclusive a Donzela Misteriosa de olhos verdes. Essa era a cor de seu
olhar. Eu queria poder fazer algo, gritar, invadir o salão e carregá-la
para fora dali, pedir para que ela fugisse comigo, mas de nada
adiantaria, o que é um pobre contra uma nobreza?
Ah,
como eu queria que ela soubesse que eu conhecia seus sentimentos, sua
dor, seu ódio, o desespero que afugentava sua alma. Sentia-me mal comigo
mesmo por não poder ajudá-la.
De
repente uma movimentação começara dentro do grande salão, a Donzela
Misteriosa saíra porta a fora, correndo, segurando a barra de seu
vestido. Logo atrás dela, a senhora, que a obrigara a se casar, se
martirizava em gritos. Tamanha minha surpresa, saí correndo atrás dela, pelas ruelas londrinas.
Depois
de cinco quadras correndo atrás da Donzela Misteriosa, perdi-a de
vista. Fiquei alarmado, irrequieto procurando-a pelas esquinas e vielas.
Mas uma corrente de ar frio me trouxe um perfume doce, que cheirava a
ervas. Fui seguindo aquele doce aroma, até chegar a uma estrada de
terra, arborizada.
Trilhei
o caminho, sendo conduzido por aquele aroma, quando vi aqueles cabelos
rubros esvoaçando, soltos da trança, e lá estava ela, a Donzela
Misteriosa, se jogando de um penhasco, de braços abertos, sendo tragada
pela escuridão como uma marionete.
Não
consegui gritar, fiquei ali, parado, vendo-a desaparecer nas trevas;
era como se meu mundo tivesse estacionado, como se todo meu ar tivesse
sido extraviado. Logo na extremidade do penhasco, havia uma rosa, assim
como aquela do lenço, incrustada por pedrinhas vermelhas.
Ajoelhei-me
na beira daquele local que se tornou cenário de meus pesadelos,
arranquei o lenço de minha lapela e joguei-o para junto da escuridão do
penhasco.
Perdi meu ar, perdi meu chão e a Donzela Misteriosa, que nem ao menos pude saber o nome.
Nenhum comentário:
Postar um comentário