Aqui vai um trecho do meu livro preferido - A marca de uma lágrima - Pedro Bandeira
Lindo como um deus
Que cheiro bom, Rosana! Que perfume você está usando? — Deixe de
besteira, Isabel. É o mesmo que o seu. Rosana estava linda, como sempre.
Linda como de propósito para humilhar Isabel.
Era mesmo uma beleza a casa da tia Adelaide. O que não parecia uma
beleza era a própria tia Adelaide. Recebia os convidados como se ela
própria estivesse fazendo dezesseis anos. E o pior é que estava' vestida
como se fizesse dezesseis anos.
— Isabel! Há quanto tempo! Como você está crescida... Está uma mocinha perfeita!
"E a senhoranão está uma mocinha perfeita!'', pensou Isabel, enquanto aceitava os beijinhos
da tia.
— E essa lindeza, quem é?
— É Rosana, minha amiga. Pensei que a senhora não se importaria se...
— Oh, mas é claro que eu não me importo! Você fez muito bem em trazê-la. Cristiano vai
adorar mais uma menina bonita na festa. Mas entrem, entrem!
De fora, Isabel já podia ouvir o som ligado naquele volumechega-de-papo. Monotonamente,
o surdo da bateria reboava como se dissesse:
— Não entre... não entre...
Isabel apertou a mão de Rosana e arrastou a amiga atrás da dona da casa.
As dimensões do salão perdiam-se nos cantos escurecidos pela iluminação precária, cheia de
clarões piscantes, destinados a excitar os espíritos.
No
meio do salão, corpos sacudiam-se ao ritmo de um som frenético, meio
misturados numa massa multicor que formava um bloco único, anônimo, como
a representação de um inferno alegre, alucinante...
Tia Adelaide falava sem parar, apontava para todos os lados e ria muito, mas nenhum som
humano poderia sobrepor-se àquela loucura.
— A senhora é mais ridícula do que eu esperava! — disse Isabel, rindo também pela
oportunidade de acobertar a franqueza debaixo daquele som infernal.
— Hein?
— Eu disse que a senhora é ridícula!
— Desculpe, querida, mas eu não ouço nada com essa música... Da massa confusa de
dançarinos, uma figura destacou-se.
Foi como se os mais ousados sonhos de Isabel tivessem tomado corpo e forma.
Corpo e forma de sonho.
O sonho dos sonhos de Isabel.
Ele se aproximou, com aquela luz maluca fazendo brilhar seus dentes e o branco de seus
olhos.
E que dentes!
E que olhos!
Tia
Adelaide ria mais ainda e apontava o rapaz, papagueando sempre. Pouco
ou nada dava para entender, por mais que a tia berrasse. Mas Isabel
praticamente adivinhou, praticamente leu nos lábios a palavra chave
daquele discurso:
—... Cristiano... Cristiano! Aquele era Cristiano!
Na
memória de Isabel, só havia o registro distante de um primo entre
outros, talvez um daqueles moleques briguentos, que só pensavam em
futebol. Mas o moleque tinha se transformado.
— Como é mesmo o nome daquele deus grego? — raciocinou Isabel em voz alta, acobertada
pelo som da festa. — Dionísio? Apoio? Não importa. Vou chamá-lo "sonho"!
— Hein?
Tia
Adelaide berrava para o filho e apontava as duas amigas. Cristiano
disse alguma coisa, bem-humorado, e abraçou Rosana, apertadamente. Tia
Adelaide sacudiu a cabeça várias vezes e indicou Isabel. O rapaz falou
novamente, rindo sempre, e voltou-se para a garota certa.
Isabel sentiu-se enlaçada por aqueles braços, e o rosto do rapaz colou-se ao dela.
— Oi, prima. Como você ficou linda... — bem próxima ao ouvido de Isabel, a voz quente de
Cristiano envolveu-a, claramente, distintamente, fazendo-a surda a qualquer outro som.
— Linda?! — sussurrou a menina, surpresa e enlevada. — Eu? Sou linda? Você disse que eu
sou linda?
Mesmo
colado a ela, Cristiano não entendeu o sussurro. E, como se fosse um
confeiteiro colocando uma cereja como um toque final de gênio sobre a
torta mais apetitosa, o rapaz beijou o rosto de Isabel com força,
fazendo estalar os lábios.
As luzes, as cores e o sangue de Isabel misturaram-se numa vertigem gostosa, e o ímpeto da
menina foi fechar os olhos e colocar-se na pontinha dos pés, oferecendo os lábios a Cristiano.
Mas, em vez disso, o que fez foi rir alto, dizendo qualquer coisa, como se fosse a piada mais
engraçada do mundo.
— Cristiano, era você que eu estava esperando a vida toda... Como se aquilo fosse um jogo,
o rapaz falava também, rindo, sem entender nada do que ouvia.
— Sonho. O meu sonho. Você é o meu sonho feito homem... Ainda segurando os ombros de
Isabel, Cristiano ria muito.
— Eu nasci para amar você, meu sonho...
Naquele instante, a fita chegou ao fim, e a palavra "sonho" ressoou claramente pelo salão.
— Hein? Sonho? O que você disse?
— Nada, primo...
Os acordes de uma música lenta, romântica, iniciaram uma nova seleção, preparada para
secar o suor dos dançarinos. Isabel esperou novamente o calor do abraço de Cristiano, pronta a
deslizar pelo salão ao seu comando, não importa aonde ele a guiasse. Ao infinito, talvez...
— E esta beleza aqui, quem é?
— Hã? Ah! É Rosana, minha amiga...
— Então vamos nos apresentar, Rosana.
E foi Rosana que aqueles braços envolveram e carregaram para misturar-se à nova massa que
se formava, agora numa forma lenta, arfante.
Tia Adelaide já desaparecera. A música desta vez não encobria a voz, e foi num murmúrio
que Isabel falou:
— Rosana, devolva o meu sonho...
***
Maquinalmente,
tinha apanhado um copo de uma bandeja que alguém lhe estendera. O
líquido estava amargo demais para um refrigerante e aquele já devia ser o
terceiro copo que Isabel aceitava. Ou talvez fosse o quarto.
Tinha
escapado silenciosamente pela porta-janela que dava para o jardim e
agora estava na penumbra, sozinha, com seu copo, vendo de fora o grupo
de dançarinos consumir, uma após outra, as músicas da seleção romântica.
Com aquela iluminação, não era possível distinguir ninguém, mas Isabel
via, em todos os casais, um só par de namorados.
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