Tinha mesmo algo errado.
Ela
acordava e via paredes que já não reconhecia, os olhos acompanhavam
cores neutras de um quarto que não era seu e se olhando no espelho
fitava com certa piedade um estranha que a olhava de volta pedindo
desculpas.
Uma vez que seus sonhos ela abandonou, uma vez que seu amor próprio ela perdeu.
Aquela
estranha no espelho já a machucou mais do que qualquer outra pessoa,
com palavras duras e decisões erradas. Ela era fraca, tinha piedade de
todos, menos de si. Se vitimizava em meio a tanta coisa para fazer.
Piscou
umas três vezes, se virou. Olhando docemente, como quem se desculpas,
limpou uma lágrima que escorria enquanto viu um estranho dormindo na sua
cama, ou ela que estava dormindo na dele?
Lembrou-se de alguns momentos felizes
tentando provar para si mesma que algo valera a pena, mas mesmo em seu
refúgio mental, aqueles momentos de humilhação e maus tratos sempre
voltavam, sempre sussurravam em seus ouvidos: "e agora? vai ligar para
quem?"
Respirou fundo, uma. Suspirou,
inspirou e engoliu seco algo que parecia uma bola de pelos descendo pela
garganta. Não choraria mais.
Levantou-se
como que de súbito e só assim poderia ser, fez uma prece enquanto
corria, abriu a porta do quarto, tropeçando em tanta coisa errada e
escondida que mal se deu ao trabalho de olhar o que era.
Não
levava celular, dessa vez não ligaria para ninguém. Dessa vez, nenhum
abandono de infância faria ela ser vitima das palavras de humilhação de
quem lhe dava boa noite antes de um beijo rápido e sem gosto.
Hoje ela era ela.
Saia
pela última porta como quem corre para salvar a própria vida. Era o que
ela fazia. Salvava a si mesma, corria da dor, do medo, da solidão.
Corria
tanto que mal sentia as pernas, estava frio, ela não se importava,
qualquer coisa era válida naquele momento se fazia ela se sentir viva.
Repetia enquanto dava passos largos, tudo aquilo que não ouvira quando
criança, repetia o que não ouvia em seu dia a dia, repetia o quanto ela
era capaz, o quão forte ela poderia ser se assim acreditasse. E sorriu.
Sorriu para si mesma e por si mesma.
Então ela chegou.
Um
lugar nem tão frio, nem tão quente. Um refúgio. Entrelaçando os braços
como num abraço a si mesma, ela disse "tenho orgulho de você, obrigada".
Então um som agudo a despertou.
"Bom dia meu amor'' - ele disse.
"Bom dia" - disse ela fitando mais uma vez aquela estranha no espelho.
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