Você tem medo de morrer? (opine!)
“Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro.” (Fl 1.21)
O que leva um homem a dizer palavras tão profundas quanto à sua própria existência? Será que nós estaríamos com a fé tão em dia a ponto de encararmos a realidade da morte de forma tão convicta? Por que será que crentes, mesmo conhecendo as promessas de Deus, sabendo o que nos aguarda após a morte; mesmo depois de tudo o que João descreveu em Apocalipse ainda tem tanto medo da morte?
A resposta para essas perguntas, penso eu, está na própria fraqueza de nossa fé. Jesus nos disse que se nossa fé fosse to tamanho de um grão de mostarda – uma das menores sementes – moveríamos montanhas (Mt 17.20), pois saberíamos o caminho da vontade de Deus – e isso é ter fé: andar segundo o caminho de Deus, mesmo que, por causa do pecado, nossas inclinações indiquem o contrário. Obviamente, esse caminhar em fé inclui muito mais, mas, por hora, basta esse aspecto.
Com isso em mente, por não andarmos, ou por não concebermos todos os aspectos da vida segundo nossa fé (aqui inclui o conteúdo, ou conjunto de doutrinas), acabamos por viver um conflito entre o que cremos e o que fazemos. Mesmo crendo na vida eterna, na salvação, na existência e soberania de Deus, temos medo de partir desta para melhor. Certamente nossos conceitos não estão de fato guiando nossa mente. Ainda nos orientamos muito por nossas percepções e pouco pela revelação de Deus.
Ainda que Deus diga que estamos caminhando para a salvação, nossa percepção nos diz que a morte é o fim. Ainda que a Palavra de Deus nos diga que iremos ressuscitar na volta de Cristo, nossa percepção diz que a morte põe fim à nossa existência. Mesmo que haja a promessa de que Jesus realizou a obra de salvação, da qual o Espírito é penhor, isto é, garantia, nossa percepção diz que se não fizermos algo, já era; mas como não há nada que possamos fazer em relação à morte, e como já não nos dirigimos pela revelação de Deus, então, nos desesperamos.
Por outro lado, como podemos ver no exemplo de Paulo, podemos sim, orientar nossa existência e reação aos fatos da vida, pela revelação de Deus. Nosso apóstolo tinha segurança de que estava liberto em Cristo. Quer isso significasse a morte, portanto ir para os braços de seu Senhor, quer isso significasse libertação de sua prisão, o que significaria continuar a pregar sobre esse Senhor. Para aquele pregador, não importava, Cristo é tudo, por isso ele disse que viver era Cristo e morrer é lucro.
Viver é fazer a obra que exalta a pessoa de Cristo, morrer é ir para os braços de Cristo. Numa ou noutra situação, a confiança de Paulo é de que sua vida não era mais viver e morrer, mas para sempre, viver, pois ele já vivenciava a realidade e a profundidade do fato de Cristo ser o caminho, a verdade e a VIDA! Crer nisso seria muito mais que uma declaração de fé, mas é verdadeiramente enxergar a vida por esse meio. O exemplo desse irmão nos conduz ao fato de que nossa fé tem de influenciar os limites de nossa mente, que não te a ver com as complexidades da ciência, mas com a simplicidade do fato de que não vivemos para sempre, pelo menos não nesta realidade de hoje.
Nossa mente consegue conceber que temos um espaço com milhões e milhões de anos luz de tamanho. Nossa mente consegue entender que partículas subatômicas influenciam ou determinam os grandes fatos do cosmo. Nosso raciocínio consegue conceber filosofias complexas que, ainda que incoerentes, demonstram toda a profundidade da alma humana, ainda que caída. Contudo, nossa mente não consegue, pela pura impossibilidade de contradição, conceber a “infucionalidade” da morte, pois, se a mente conceber, então, há algo nessa concepção que anula tal neologismo: a própria concepção do fato. Por isso, temos medo do que não concebemos, mas é ai que entra o passo da fé.
Antes de concordar com Kierkeergard e conceber a fé como um salto no desconhecido, devo dizer que a fé é o passo da confiança. Sim, andar em fé não é andar no escuro, mas é confiar que o que Deus nos revelou, ainda que não tenhamos meios para comprovar prontamente, é a verdade. Confiamos que a revelação de que somos seres criados, mesmo não estando lá no princípio de tudo, é verdade. Confiamos que, apesar da queda, Deus estabeleceu um caminho para a salvação do homem e que, portanto, há uma realidade além desta caída. Confiamos que tal realidade foi possibilitada pela encarnação do Filho, que se entregou para pagar nossos pecados – mesmo sem termos presenciado a crucificação. Confiamos também que, mesmo sem termos morrido antes, há algo além de quando nosso corpo se separa da alma do que a simples estagnação irreversível e corruptora.
Tudo isso significa que não estamos dando um passo no escuro, mas um passo na clara revelação de Deus. Nosso temor não está no fato de que tudo é obscuro, mas de que não estamos crendo devidamente no que o Criador nos revela. Podemos ter certeza do que nos aguarda, só não temos é a fé necessária para confiar suficientemente na informação que nos foi dada. Isso revela, de fato, nossa falta de confiança, que é parte do que constitui a fé - por isso digo que nossa fé é menor que o grão de mostarda, pois não moveu a montanha chamada medo.
Se crêssemos íntegramente que o Senhor está falando a verdade, não temeríamos. Não digo que não temeríamos as dores, pois nem Jesus as encarou serenamente, mas pediu a Deus para não as sofrer, ainda que estivesse disposto a tanto. Mas, muito mais do que dores, a morte significa a total impossibilidade e total falta de controle de nossas vidas, ou daquilo que virá depois, que, na verdade, não passa da velha ilusão de que nossa existência está em nossas mãos.
Neste ponto, temos de nos lembrar que somos criaturas. Numa realidade criada, o controle está nas mãos do Criador. Ele define tempos e modos. Meios e propósitos. Nunca estivemos em nossas próprias mãos, ou você acha que criação, queda, redenção e vida e eterna são frutos de escolhas impulsivas e momentâneas de Deus,. ou mesmo do homem? Não! São fruto dos planos eternos do Criador, que sempre teve nossas vidas em suas mãos, e que nos ensina que vivemos e morremos, devolvendo à terra seu pó e nossa alma ao seu Criador e guardião.
O passo da fé é o passo da inteligência, da sabedoria e da confiança. Somos inteligentes em descansar naquele que pode. Somos sábios em sabermos que somos incapazes e dependemos dEle. Somos confiantes quando nos tranquilizamos por vermos a vida segundo a revelação que nosso Senhor nos entrega.
Para aquele que crê, viver ou morrer, não faz diferença. Numa ou noutra circunstância, sua vida e sua existência se resumem a um fato, ou melhor, a uma pessoa: Jesus Cristo. Se nossa visão da morte é algo desesperado e deixado de lado, pois não nos sentimos confortáveis com o assunto, é por que nossa confiança na Palavra de Deus, ou seja, em sua revelação, não está como deveria. Se o Pai falou, então é. Se Palavra me disse que é bom partirmos para os braços de Jesus, então podemos salmodiar dizendo: “Preciosa é aos olhos do SENHOR a morte dos seus santos.” (Sl 116.15)
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